Texto publicado em www.onboardbgg.com.br/
"Eu não sei jogar!" A frase que mais escuto em eventos e oficinas de jogos de tabuleiro. Quando fundamos o On Board, uma das três linhas de ação seria a de divulgação do hobby e formação de novos jogadores. Em menos de um ano de vida, abrimos o primeiro espaço público semanal para se jogar em Santa Catarina, participamos mensalmente de uma feira organizada pelo município de São José, organizamos um evento beneficente de divulgação de jogos, fora o trabalho em escolas e mais alguns segredinhos de coisas que vêm por aí. Em suma, lidamos com os novatos, os que nunca jogaram ou sequer ouviram falar dos modernos board games e têm, quando muito, a experiência de Jogo da Vida ou Uno. War e Banco Imobiliário é demais para alguns deles.
Então o novato, ou civil, como diz nosso integrante Moisés Pacheco de Souza, chega em um de nossos eventos, observa a toalha esticada, os componentes chamativos e coloridos dos novos jogos, busca o nome em nossos crachás, cumprimenta discretamente as pessoas na mesa, ouve rapidamente parte da descrição de algum jogo para os que já estão sentados até ser atingido pela pergunta mortal: "vamos jogar"?
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Jogos cooperativos são uma boa pedida para novatos. (Foto On Board)
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E o coração dispara, as glândulas sudoríparas entram em ritmo de produção de fábrica de panetone no Natal, os traumas de notas baixas e trabalhos mau apresentados de toda sua vida escolar vem à tona e a resposta mais polida que o incauto consegue formular é: "não sei jogar". Até brincamos com isso, dizendo que cada vez que a ouvíssemos ganhássemos um real... bem, você pegou a ideia. Tentamos tranquilizar afirmando que o evento foi criado justamente para ensinar, que as demais pessoas também não conhecem o jogo, essas coisas. A próxima etapa é utilizar os dardos tranquilizantes. Até hoje, felizmente, não foram necessários.
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Nas escolas, a galerinha tem se mostrado muito
favorável aos jogos de tabuleiro. (Foto On Board) |
Alegar não sei jogar ou não sei fazer é uma das duas etapas da vergonha pela qual o novato passa. Precisamos entender que nossa atividade deboard gamer é intelectual, sim. Que o mero fato de ter paciência de ler e compreender um manual e conseguir executar suas instruções em uma sociedade cada vez mais avessa à leitura provoca, inconscientemente, um afastamento, uma postura de defesa. Somos diferentes, somos minoria. Entenda isso, pode ser útil no processo de divulgação. Não há problema nisso, o problema é o pedantismo comum que acompanha. Muitos preferem que nosso hobby fique restrito a poucos, mas falarei sobre em outro momento aqui na Analysis Paralysis.
Sou professor de Matemática há duas décadas. Nos atendimentos aos pais o mais comum de se ouvir é "meu filho tem dificuldade". Sério? Sabem quantos milhares de alunos transformei que tinham dificuldade e aversão ao meu ramo de ensino? Ter dificuldade é normal, a questão é o que a pessoa faz para lidar com isso. Usei este exemplo pessoal, coisa que não é de meu feitio, pois acredito se encaixar na relação novo jogador/novo jogo.

O medo de falhar, de não desempenhar bem na hora da avaliação, de "dar branco", são comuns nos dois casos. Jogar é ser avaliado, como em sala de aula. A cada turno é sua vez. O jogo para, a mesa para esperando pela sua decisão. Não basta fazer qualquer coisa é preciso fazer algo útil, inteligente e estratégico para não parecer burro. Desculpem a palavra grosseira, mas muitos dizem "sou muito burro para essas coisas aí"! Ou pecado mas grave ainda, esquecer quais são as opções de ações. É você, novamente, no Ensino Médio, diante daquela prova em branco de Matemática ou Física que você tenta entregar junto de mais cinco amigos para misturá-la para que o professor só consiga vê-la em casa. A mesa de jogo é ainda mais cruel, não há ninguém para lhe acobertar.
São, pois, dois estágios de vergonha. A primeira de não entender as regras e a segunda de não conseguir executar. É falhar na explicação do professor e falhar na hora da prova. Estão vendo? Mesma coisa.
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Mesa com oito novatos em Summoner Wars. Todos aprenderam
ao mesmo tempo. (Foto On Board) |
Outro motivo, e neste não tiro a razão dos alunos, digo, jogadores, é que muitos professores são péssimos. Em outro momento escrevi sobre dicas para ensinar um jogo para seu grupo (Top 5 Para Ensinar Jogos). Aqui a situação é mais complexa, pois estamos lidando com pessoas estranhas e novas no hobby. Ao ensinar um jogo, não parta do princípio que você se fez entender. Não espere perguntas, muitos terão vergonha de perguntar. Explique, resuma ao final, faça você mesmo as perguntas mais usuais, dê dicas estratégicas para facilitar o desempenho dos novos jogadores. Explique de novo. Seja chato e peque pelo excesso! Em sua roda de amigos você pode até brincar, digamos, da baixa velocidade de compreensão de algum amigo seu. Com estranhos, repito, você corre a chance de mesmo não tendo sido compreendido, a pessoa não lhe perguntar nada.
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Gustavo Gaiotto, integrante do On Board, provando
que não há idade para board games. 7 Wonders aos 70 anos!
(Foto On Board) |
Finalmente, o mais importante, crie um clima amistoso, não competitivo na partida. Você conhece o jogo, sabe as regras e já jogou dezenas de vezes. Escolha talvez nem jogar, o que pode ser extremamente aconselhável dependendo do jogo, mas se o fizer, não jogue para vencer. Em 7 Wonders, por exemplo, que tal você jogar a primeira era com as cartas abertas na mesa? Obviamente, alguns jogos exigem a presença do conhecedor. Favoreça, contudo, um clima competitivo entre os novos jogadores apenas, não se inclua e não inclua os membros de seu grupo na disputa pelo título. Mesmo assim, se você jogou e venceu, mostre porque isso ocorreu. Explique os pontos positivos de sua estratégia. Ao falar dos pontos negativos dos novatos ou ao apontar sugestões, seja sempre muito paciente e adote a mesma postura de mediador.
Isso não apenas vale para novatos em eventos, mas seus amigos que não estão no hobby e familiares. Vejo muitos reclamarem que não tem pessoas para jogar este ou aquele título e querem mostrar alguns jogos para pessoas próximas. Neste caso, os novatos tendem a ser ainda mais incisivos, pela intimidade com você, quando não querem jogar. Pode apostar, é vergonha. Ainda mais que provavelmente você é considerado o "inteligente" da família ou da roda de amigos e ninguém quer se sentir por baixo.
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| Lukita em mais uma mesa de "civis". (Foto On Board) |
Felizmente, este comportamento vem ficando cada vez mais raro e existem muitas pessoas dispostas a ensinar jogos de tabuleiro. De toda a revolução do mercado nacional dos últimos anos, os verdadeiros heróis não são as empresas, nem os lojistas, nem os designers. São os anônimos que dedicam parte de seu tempo convidando amigos, parentes ou estranhos para, passo a passo, irem criando o hábito do lazer social e lúdico. Somos nós, os sem vergonha de admitir que aprendemos mais sobre as pessoas, os jogos e a arte de ensinar a cada nova sessão.