Divagações sobre a negociação em “A Game of Thrones: The Boardgame”
Em qualquer lista sobre jogos que acabam com amizades está “A Game of Thrones: The Boardgame”.
Confesso que isso me fez tremer quando esse jogo foi sugerido para ser o primeiro do nosso primeiro encontro do nosso recém-criado grupo de jogos. Eu já pensei nas notícias de jornal do dia seguinte:
“Colega mata outro durante partida de jogo de tabuleiro. Carta (de boa gramatura) foi usada como arma do crime.” Ou então: “Jogador morre asfixiado após ser obrigado a engolir 8 peças de exército e 3 tokens de ordem”. Imagine! Talvez fosse o fim do grupo...

Bom, a verdade é que a propaganda não correspondente (completamente) à realidade.
Não tenho um número suficiente de partidas para fazer uma análise mais sedimentada, mas notei algumas coisas na nossa partida que me chamaram a atenção.
Existe, sim, espaço para negociação, mas isso me pareceu um aspecto menor do jogo.
É um pouco estranho para mim, mas as limitações apresentadas pelo jogo (que são muitas), não fazem o jogador ter que recorrer a alianças para alcançar seus objetivos, mas concentrar todos os seus poucos recursos no seu próprio plano para controlar 7 fortalezas/castelos.
Explicando melhor. O jogo apresenta uma série limitações.
Quantidade de exército num determinado lugar: isso é determinado pelos barris. Mas para ter mais barris, você precisa espalhar suas conquistas, provavelmente gastando dinheiro para manter o controle dos territórios.
Quantidade total de exércitos: limitado pelo número de peças. Por exemplo, você só tem 2 catapultas durante todo o jogo.
Dinheiro: é curto durante todo o jogo e você gasta para melhorar sua posição nas trilhas do Trono, Espada e Corvo, gasta para manter o controle de territórios e gasta para contribuir na luta contra os selvagens. Ou seja, é escasso, como na vida real!
Número de tokens de ordem: determinado pelo número de territórios com exército.
Número de tokens de ordem com estrela: determinado pela posição na trilha do corvo. Essa aqui é doída. Ficar sem colocar tokens com estrela significa não criar mais exércitos e só isso já deixa o jogador numa situação muito complicada. A partir daí é ladeira abaixo...

Os tokens de ordem com estrela são uma das grandes limitações que o jogo impõe
E a própria limitação de tempo: o jogo acaba em 10 rounds. Isso se ninguém controlar 7 fortalezas/castelos antes!
Não estou reclamando das limitações, acho que elas são válidas e fazem o jogo ser bom (só achei a limitação de tokens com estrela um pouco forte). Meu ponto é que, por uma lógica a priori, eu achei que as limitações forçariam um jogador a recorrer a outro, pois não conseguiria alcançar seus objetivos sem ajuda.
Na prática, entretanto, ocorre que devido a essas mesmas limitações, não vale a pena ajudar outro jogador e cada um foca apenas nos seus próprios objetivos, reduzindo o poder da negociação.
Ou seja, faltou no jogo um incentivo para ajudar (ou mesmo uma obrigação). Talvez pudesse haver uma forma de recompensar um jogador que ajuda outro. Isso daria uma importância muito maior para o aspecto da negociação!
Outra coisa. Só tem um jeito de ajudar outro jogador, que é por meio de uma ordem de suporte. É muito pouco! Tinha que haver outras formas de ajudar, usando dinheiro ou dando um boost numa trilha de outro jogador, emprestando um barril não usado, sei lá! A ordem de suporte apenas não é o suficiente para fomentar a negociação.
E o mais importante: deveria haver um jeito de fazer as negociações de forma oculta (além da ordem de suporte)! Puxa, isso foi o que mais faltou! Se você diz para alguém “eu não te ataco e você não me ataca” todo mundo escuta. Isso tinha que ser feito debaixo dos panos. Isso seria até mais temático com o universo de Game of Thrones (eu nunca li os livros, mas tenho acompanhado a série de TV).
Eu até entendo que um jogador pode fazer uma promessa de não atacar, mas colocar um token de ataque. Legal. Mas isso é meio externo ao jogo, não forçado pelo jogo.
Quase terminando (eu sei que está chato, mas não desista!).
Cabem dois
disclaimers sobre a minha impressão do jogo. Em primeiro lugar, nós jogamos com 4 jogadores e talvez haja espaço demais no tabuleiro para que os jogadores sejam forçados uns contra os outros. Em segundo lugar, não quero fazer uma análise psicológica, mas nosso grupo não parece ser do tipo agressivo. Pode ser que eu revise essa opinião no futuro

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Por fim, apesar desses pontos sobre a negociação, eu gostei do jogo. Sinal disso é que as 4h30 de jogo pareceram 30 minutos!
Um abraço e bora jogar!