Eae, galerê!
Voltei momentaneamente, trazendo uma análise que está pronta fazem algumas boas semanas, mas segurei por um motivo especial: a publicação de conteúdo extra para o jogo no meu outro canal, em parceria com o digníssimo e tabuleríssimo @Rimor, chamado Oficina de Variantes. No final da análise clique no link e veja o material que com muito carinho e amor criamos, para este jogo que achei totalmente excelente (a ponto de nos dedicarmos tempo para criar ainda mais coisa!).
Agora, bora lá para a análise completa aos moldes de sempre:
(Análise) Fliptoons
Título: Fliptoons (2026)
Designer: Jordy Adan, Renato Simões
Arte: Diego Sá
Editora nacional: Geek N’ Orcs
Nº de jogadores: 1 a 4
Comande sua própria trupe de artistas animados e construa o mais famoso episódio neste jogo de cartas dinâmico e rápido.
Uma Breve Introdução
Eu não fazia ideia da existência deste jogo e sei hoje que a culpa disso foi totalmente minha. Como quem acompanha o canal já deve ter percebido: tô sumido. Não só escrevendo quase nada, como nem estou mais acompanhando o hobby - salvo produções gráficas na Oficina de Variantes. Onde quero chegar em que Fliptoons fez um bom barulho no lançamento, sendo um dos poucos jogos nacionais com tamanha cobertura internacional em canais de Youtube.
Rimor (Rafael Arruda), um nobre amigo do hobby, me falou muito bem deste jogo e como estava próximo de meu aniversário pensei: "tá aí um bom presentinho para mim!". Assim o fiz. Comprei, joguei, adorei.
Nasceu, inclusive, um esforço conjunto entre Rimor e eu, dentro da Oficina de Variantes, para criar mais conteúdo para o jogo, não com o intuito de ‘consertar’ alguma coisa, mas adaptar ao meu gosto. Ao longo do texto vou apresentar estes pontos que ficaram maomeenoo para mim, mas nenhum deles tira o brilho de Fliptoons, que para mim – de maneira geral - é um excelente jogo de cartas.
Resumo de Como o Jogo Funciona
Cada jogador possui um baralho inicial com 6 cartas. Cada rodada é dividida em duas partes: na primeira, cartas são abertas deste baralho formando uma grade de 3x2 – e depois é analisada a quantidade de FAMA que estas cartas geram; na segunda parte, em ordem, os jogadores usam esta FAMA acumulada para adquirir novas cartas para o seu baralho ou dispensar cartas do mesmo. A partida continua neste ciclo até que alguém bata 30 pontos de FAMA, então uma nova rodada final é jogada e quem, nesta última rodada, fizer mais pontos de FAMA vence.
O modo solo roda de forma similar, porém com os 30 pontos de FAMA como condição de vitória, tendo que ser alcançados antes que o baralho central acabe.
Mecânicas Principais: Construção de baralho*.
*Ó, seguinte... o jogo é de construção de baralho em teoria. Na prática mesmo, é quase um jogo de ‘Construção de mão’, de tal forma que eu chamaria Fliptoons de: ‘um jogo de cartas’ e me dou por satisfeito. Eu explico o motivo disso mais para o final do texto, no quesito ‘Sorte’.
Critérios
Ø Qualidade dos Componentes
PRÓS: Caixa firme e cartas de ótima qualidade. É isso. O jogo só tem carta, não tem muito mais o que dizer mesmo.
CONTRAS: Caixa onde cabem as cartas de forma justa, só que mais nada - impossibilitando uma futura expansão de caber na mesma caixa (e ele merece expansões, ao longo do texto mostro os motivos).
(Todos os componentes)
Ø Tempo de Preparação de Partida
Baixa. Basta distribuir as cartas iniciais, embaralhar tudo e colocar algumas cartas na mesa. Fim. No modo solo existe um passo adicional, que é retirar algumas cartas do baralho central, mas nada que incomode ou atrapalhe.
(Uma carta em detalhe)
Ø Arte
PRÓS: As ilustrações buscam um visual meio anos 30, se inspirando mais especificamente no estilo cartunesco conhecido como "Rubber Hose" (tradução livre: mangueira de borracha). Ela funciona muito bem no jogo devido a leveza temática e descontração, já que mecanicamente o jogo flerta bastante com a sorte.
CONTRAS: Faltou um pouco mais de capricho na revisão de texto. Existem alguns errinhos bobos de ortografia, como "s" faltando ou espaçamento errado. Como eu costumo dizer: não sei se é pressa ou preguiça - pois 10 minutinhos resolviam tudo. Agora, como a editora não se manifestou sobre o assunto (até a publicação desta postagem), toda vez que Fliptoons for para a mesa com alguém novo, editora, revisor e design vão passar vergonha (ôôô editora, vamos fazer umas cartinhas de reposição aí e mostrar que se importam com padrão de qualidade, vâmo???)
(Duas cartas com erros bobos, mas presentes, na parte escrita)
Ø Curva de Aprendizagem
Baixa. O jogo é bem simples em relação às regras. Só existem duas ações (contratar: pegar cartas do mercado central; ou Dispensar: jogar carta que temos fora - ambos utilizando a Fama que temos na rodada). A dificuldade reside em conhecer as cartas e possibilidades e compreender quando e como arriscar, comprando cartas que tenham mais ou menos sinergia com as demais que possuímos.
(Como fica a mesa em uma partida com 1 jogador.
Em mais, basicamente cada jogador adicional possui essa área com a grade de 3x2 e seu baralho de cartas)
Ø Presença de Tema
Média. O jogo é fofo e a arte é boa. A justificativa também é bem legal: o jogador é um diretor/produtor de desenhos animados e as cartas são os atores e perdonagens (chamados no jogo de Toons). Cada rodada é um episódio - o que também faz sentido dentro do vocabulário do jogo. Por fim, cada Toons/personagem tenta ter uma relação entre a sua habilidade e uma característica que apresenta, por exemplo o Jacaré está com a sua ilustração voltada para a direita, com um garfo e faca na mão: a sua habilidade é dispensar um Toon à direita (o tadico foi devorado?!). Outro exemplo, o Coelho está com a ilustração todo apaixonadinho, com coraçõezinhos e buquê de flores: a habilidade consiste no caso de se tiver outros Coelhos, eles empilham uns sobre os outros, ocupando assim o mesmo espaço da grade... sim, eles estão acasalando (e às vezes de maneira grupal mesmo). Nem todo animal tem uma relação tão clara (como a Vaca que copia habilidade de carta adjacente e eu não sei qual a ideia por trás disso), mas é legal nos que entendemos a referência.
Uma informação extra é que o jogo nasceu sendo inspirado no Jogo do Bicho, logo os animais tem seu número com base nisso - só que essa informação é totalmente irrelevante para a temática final do jogo. Uma coisa que me causa bastante estranheza é o desfecho da partida: quem faz mais fama na última rodada vence, ou seja, não importa o quão bem você foi antes - só o episódio final importa. Tematicamente achei isso bem fraco (mecanicamente também, mas retorno a isso mais para frente).
Ø Rejogabilidade
Média. Acho que essa é minha segunda maior crítica (a primeira é sobre o final da partida que vai constar no quesito ‘Estratégia’). O curioso é que essa minha crítica vem embalada num lindo elogio: o jogo é tão bom que merecia mais! Principalmente mais cartas. Muito mais cartas. Falta variedade. Me parece que a ideia de "se inspirar em jogo do bicho" limitou a produção, pois poderiam ter muitos efeitos adicionais e diferentes. Fliptoons merecia uma caixa maior, com 110 cartas ao invés de cinquentepoucas, mesmo que isso fizesse o jogo custar mais caro. Tendo não muita variedade no mercado, e entendendo quais as melhores cartas (como o Peru, Tigre ou Gato), depois de algumas partidas fica uma sensação de repeteco, de que já vimos e fizemos exatamente aquilo antes (e talvez já tenhamos mesmo) e isso é triste. É triste ver uma mecânica bem desenhada, divertida e muito funcional pecar por falta de variedade.
(Mais alguma cartas do baralho central)
Ø Interação
Média. Não existem interações muito diretas, como ataques ou afins (salvo uma única cópia da carta Porco, que gera 1 ponto negativo de FAMA e depois a carta é entregue para outro jogador), então o maior impacto está em quem compra o que e quando no mercado. Existem, porém, algumas cartas que geram uma quantidade de Fama diferente em relação ao que o outro jogador possui (como o Camelo e o Cachorro), o que gera uma dinâmica divertida, mas nem sempre está presente em todas as partidas e não são o suficiente para deixar o jogo tão interativo assim.
Ø Fator Sorte
Relevância na partida: Média, mas jogue para ser Baixa. Muitos comentários na internet dizem que Fliptoons depende muito de sorte. Eu concordo em partes: ele depende de sorte quando consideramos o que e quando as coisas entram no mercado central e só. Em relação ao nosso baralho, NÃO queremos que ele conte com a sorte (e daqui para frente começa a minha crítica do motivo deste jogo não ser, de fato, sobre construção de baralho da forma convencional que conhecemos). O que acontece é que existem Toons/cartas cujo efeito é muito relacionado com a sorte que envolve em qual local da grade ele aparece, mas estas cartas podem ser tão benéficas quanto punitivas, a depender da situação, logo, contar com elas em uma partida é extremamente arriscado. Existem outras, por sua vez, que dão muitos pontos garantidos (ou quase), como o Gato, o Tigre ou o Peru. Quando você entende que a habilidade EMPILHAR é extremamente boa, VIRAR é ruim e DISPENSAR é muito ruim – principalmente após a metade da partida, onde você faz mais FAMA do que consegue gastar, você aprende que existem cartas que você não vai querer apostar. Por exemplo: ao jogar o modo solo, mesmo na dificuldade Difícil, minha taxa de vitória (até o momento, claro) é de 90%. Isso é MUUUITO para um jogo solo.
Isso tudo começa a fazer sentido quando minha experiência me ensina que eu sei que a Cobra ou o Jacaré só valem a pena se aparecem até a terceira rodada, depois disso: é lixo. Já o Gato, o Peru, a Avestruz, o Tigre e o Galo são compras certas. Se você der a sorte de conseguir mais de um Gato e/ou Tigre, metade do placar necessário estará feito em mais duas rodadas somente com essas duas cartas (explicando: tanto o Gato como o Tigre dão pontos por Toons dispensados).
Com isso, a conclusão é: eu não vou jogar para ter mais de 6 cartas no meu baralho individual – e se tiver, cada uma adicional deve ser compensada por outra que tenha a habilidade EMPILHAR, para que eu abra todas as cartas que tenho, contando apenas – e eventualmente – com o posicionamento de uma ou outra carta na grade. Portanto, Fliptoons é um jogo que tem sorte, mas ela não é o suficiente para me fazer perder ou ganhar, pois se eu sei quais cartas tem a melhor sinergia com outras e com a própria dinâmica da partida, eu não conto com ela.
(Como ficam as cartas dentro da caixa)
Ø Fator Estratégia
Relevância na partida: Média. Fliptoons também não é o ápice da estratégia baralhística. Contudo, quando o jogador entende o impacto na sorte e como é ele próprio que conduz o impacto dela em sua partida, ele percebe que Fliptoons tem uma quantidade razoável de estratégia envolvido (e até mais do que sorte) – SALVO a fatídica-e-triste-escolha-de-game-design que envolve a última rodada. Isso aqui é o maior problema do jogo para mim (fechando o gancho levantado lá no quesito Rejogabilidade). É broxante você jogar uma partida inteira (mesmo que ela não bata os 25 minutos) e depois disso perder por muito pouco por algo que não é culpa direta sua. Como apresentado no comecinho do texto, funciona assim: você abre, compra e dispensa, abre, compra e dispensa, abre, compr... (geralmente esse é o ciclo perfeito) – quando alguém faz 30 de FAMA: OPA! Última rodada! Quem alcançou os 30+ ganha um bônus de ‘3 de Fama’ (se empataram ninguém leva esse bônus) e fazem entre eles uma última rodada. AQUI QUE TÁ O DRAMA: Pode ser que você faça 31 e outro jogador 32. Ele recebe o bônus de 3. Abrem na última rodada: você faz 32 e o outro, mesmo com o bônus, faz 30 – pois as cartas reveladas o atrapalham dessa vez. Você tinha perdido, dai venceu. Isso é broxante para quem perde, pois não viu o mérito de seu esforço e até para quem ganha, pois não sentiu o devido merecimento. Em outras palavras, o que falta em Fliptoons são mecanismos que reconheçam o progresso e desempenho dos jogadores ao longo da partida, caso contrário: é pegar os melhores e pedir para tirarem no par ou ímpar quem venceu.
Eu entendo que se trata de uma partidinha rápida (20 a 30min) e com regras simples e acessíveis, mas isso não é desculpa para um fim anticlimático. É preciso não apenas dar agenciamento aos jogadores durante a partida, é preciso que as decisões que eles tomam (qual carta nova pegar e qual dispensar) influenciem diretamente e visivelmente no resultado final. Isso não está muito presente em Fliptoons, de tal forma que um jogador com um começo de jogo ruim pode se tornar vitorioso mesmo tendo feito escolhas menos acertadas e conscientes do que outro jogador, por uma questão de um turno de revelação de cartas um pouco diferente do que gostaria.
Ø Preço e Valor Percebido
Muito Bom. Paguei 100 reais, já com sleeves, numa cópia lacrada na semana do consumidor. Geralmente o valor de mercado gira (hoje) em torno de R$107 a R$120, lacrado. É um bom preço considerando o patamar de valores praticados atualmente. Não é um preço melhor, pois o jogo tem erros na produção no que tange ortografia em algumas cartas e até no manual e que a editora não disse um ‘piu’ sobre reposição. Contudo, como o jogo é acessível e, em geral, muito bom, a chance de ele ver mesa com frequência – principalmente quem joga com familiares e pessoas de fora do hobby é imensa. Para mim, jogo com bom preço e valor é aquele que vê muita mesa, a ponto de o ‘valor por partida’ deixar de ser número relevante. Eu mesmo tenho jogos na minha coleção que ainda estão na casa dos “R$30 por partida”, infelizmente. Fliptoons, hoje, está na casa dos “R$2 por partida” e diminuindo a cada dia.
RESUMO RAPIDÃO
O que gostei:
- Arte bonita;
- Cartas de boa qualidade;
- Regras fáceis, dando para jogar com familiares e crianças (que leiam com facilidade);
- Bom equilíbrio entre sorte e estratégia;
- Compacto, sendo fácil de carregar;
- Ocupar pouco espaço na mesa.
O que não gostei:
- Erros de grafia em cartas (e sem notícias de reposição);
- Pouca quantidade e variedade de cartas e habilidades;
- Modo solo muito fácil, não apresentando nenhum desafio real;
- Final da partida anticlimática.
Considerações finais:
Eu não sou muito um carinha de jogos de cartas, vaza ou nada assim, mas adoro jogos de construção de baralho. Fliptoons, portanto, ficou bem neste meio do caminho, mas não ficou em cima do muro: é um jogo ótimo, que tem pontos negativos, mas que eles não estragam o brilho e criatividade do sistema e gamedesign criado ...mas que dá vergonha apresentar um jogo com carta com erro na escrita, isso dá.
EXTRA! EXTRA! EXTRA!
Se você concorda com os pontos negativos que eu trouxe e quer tentar dar uma nova chance, ou mesmo gostando dele do jeito que é (e é realmente muito bom mesmo!) tenho uma notícia: a
Oficina de Variantes criou NOVOS MODOS de jogar e até mesmo
NOVAS CARTAS! Confira o arquivo com as regras e materiais neste link:
https://ludopedia.com.br/topico/99262/fliptoons-horario-nobre e considere seguir o nosso trabalho na Oficina de Variantes! ^.^
Um texto de
Raphael Gurian
A ideia deste formato de análise não é explicar um jogo, para isso existem muitos outros textos, vídeos e etc. A finalidade do texto é fazer uma análise crítica acerca de critérios que acho importante e que muitas vezes acabam não sendo explorados em análises de uma forma mais detalhada. Os jogos analisados não seguem qualquer critério comercial, incentivo ou pagamento, sendo escolhidos com base em fontes de vozes da minha cabeça, aliado ao fato de ter já jogado o jogo em questão muitas vezes, a ponto de me sentir confortável em opinar sobre o mesmo.
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