Como Vlada foi da sofisticação ao pop, sem perder a qualidade
O ano é 1975 e o Gênesis, uma das mais bem-sucedidas bandas de rock progressivo, encontra-se ao mesmo tempo no auge e na beira do precipício. Por um lado, estavam no ponto mais alto da carreira, reconhecidos (como são até hoje) como uma das melhores — senão a melhor — bandas de rock progressivo de todos os tempos. Por outro, o desgaste entre o vocalista Peter Gabriel e os demais integrantes era grande e, aliado a problemas pessoais de Gabriel, levou ao rompimento dele com a banda.
A banda ficou um tempo sem norte. Depois de testar mais de 400 cantores, decidiu que a solução estava em casa: o baterista Phil Collins, que já quebrava o galho cantando nos ensaios, era o melhor que tinham e se tornou o vocalista.
Formação resolvida, o Gênesis iniciou outra transformação — desta vez, no estilo musical. Eles já tinham alcançado o topo do rock progressivo, mas esse é um gênero sofisticado, feito para um público exigente. Queriam alcançar as rádios, mas sem perder a qualidade.
Assim, num processo gradual, começaram a simplificar sua música. Em três ou quatro discos, foram de
Squonk a
Invisible Touch, seu maior hit nas paradas. É uma mudança incrível porque, ao mesmo tempo que você percebe como eles sintetizaram o que faziam em formas mais simples, a sua imensa qualidade ainda estava ali.
A transição foi um sucesso absoluto de público e crítica. A banda, que já era famosa, tornou-se uma das maiores dos anos 80 e possui músicas que tocam nas rádios até hoje.
Trazendo para o nosso mundo dos jogos de tabuleiro, podemos dizer que Vlaada Chvátil tem uma trajetória bastante parecida com a dos músicos ingleses.
Vlaada ficou conhecido como autor de ótimos euros pesados. Os mais famosos são
Through the Ages e
Mage Knight, mas são dele também
Dungeon Petz e
Dungeon Lords. Para a maior parte dos designers, ter apenas um desses jogos no currículo já seria glória suficiente. Porém, não foram esses jogos que o deixaram rico, e sim aquele que é o assunto de hoje: uma pequena obra-prima chamada
Código Secreto (
Codenames), vendido no Brasil pela Devir.
Assim como no caso do Gênesis, não houve uma mudança abrupta na carreira de Vlaada. Ele sempre trabalhou com projetos pesados e outros mais leves, como
Galaxy Trucker e
Space Alert. A partir do momento em que criou a CGE (Czech Games Edition), talvez tenha surgido a necessidade de ter um produto acessível ao grande público. E então Vlaada simplesmente criou o party game perfeito.
Estrutura do Jogo
Código Secreto é um jogo de palavras com temática de espionagem. O jogo é abstrato, mas o tema é bem colocado, ajudando a explicar regras e dinâmicas.
Dois times de espiões precisam encontrar seus contatos antes do adversário. Para isso, criam um sistema de senhas. O mestre passa a senha e os agentes precisam interpretá-la. Mas é importante evitar os contatos errados: os adversários, os civis e, principalmente, o assassino.
Na mesa, forma-se um grid 5x5 com 25 cartas, cada uma contendo uma palavra.
O jogo exige pelo menos quatro pessoas, divididas em dois times. Embora possa ficar caótico com muita gente, não há limite estrito — e os times podem ter tamanhos diferentes sem prejuízo.
A cada rodada, cada time escolhe um mestre; os demais são agentes. Os mestres sorteiam uma carta de senha, que indica o time inicial e quais cartas pertencem a cada equipe. As demais são neutras ou o assassino.
Cada mestre analisa suas palavras e, alternando turnos, dá uma dica composta por
uma palavra e um número. A palavra deve conectar a quantidade de cartas indicada pelo número. Os agentes discutem e apontam cartas, uma por vez. O mestre permanece em silêncio absoluto.
Se acertarem uma carta do próprio time, ganham um ponto e continuam. Se acertarem uma carta do adversário, o ponto vai para o outro time e o turno acaba. Se for um civil, ninguém pontua e o turno termina. Se for o assassino, derrota imediata.
O jogo segue assim até um time encontrar todas as suas palavras ou até alguém revelar o assassino. E, honestamente, é difícil parar antes que todos tenham sido mestre pelo menos uma vez.
Por que ele é tão bom?
A grande sacada do Código Secreto está na
polissemia — o fato de que uma mesma palavra pode carregar muitos significados e gerar associações inesperadas.
Na ânsia de conectar várias palavras, o mestre cria relações que parecem óbvias para ele, mas não para o time. E o time, por sua vez, faz conexões que o mestre jamais imaginaria. Às vezes, acertam por motivos completamente errados — e isso é maravilhoso.
O mestre sofre em silêncio. Nada de caretas, dicas extras ou impaciência. É um exercício de autocontrole. A resenha só vem no fim do round.
Outro fator de sucesso é a dinâmica de times, que torna o jogo perfeito para festas. Ele envolve todos os presentes, e os agentes podem até sair e voltar sem grandes problemas.
Dicas de Estratégia
Apesar de ser um Party Game, Código Secreto não é um jogo isento de estratégia.
Você precisa analisar muito bem todas as cartas, não só apenas aquelas que lhe interessam. Algumas dicas podem ser muito arriscadas no início do jogo, com todas as palavras abertas, mas se tornam mais fáceis se a palavra que está entrando no meio for selecionada antes, seja pelo seu time ou adversário.
As vezes é melhor dar dicas simples com poucas cartas no início para depois arriscar. Porém, se você ficar atrás, terá que aumentar o risco dando dicas mais abrangentes.
Uma coisa legal do jogo é que o mestre pode dar um número maior do que a quantidade de cartas que ele está indicando. Isso normalmente é usado depois que o time erra, para que ele possa tentar acertar a palavra que eles perderam na rodada anterior.
Outra coisa é pensar nas referências que a pessoa está escutando mais do que nas suas. Não adianta usar termos de mitologia grega com uma criança de oito anos. Ela não vai entender.
Por parte dos agentes, o mais óbvio normalmente é o mais certo. Indique primeiro as palavras que você tem certeza. Depois, você parte para a cogitação.
E não se preocupe em errar. A principal função desse jogo é se divertir. Porém, quando você consegue dar uma dica quádrupla e os agentes acertam, é alegria de fazer um gol.
O Legado: A Nova Escola de Jogos de Palavras
Jogos de palavras são clássicos dos jogos de salão. Quem nunca brincou de adedanha ou dicionário? Além disso,
Scrabble e
Imagem & Ação são sucessos consagrados.
Ao trazer essa ideia para o jogo moderno e reapresentar os jogos de palavras em nova roupagem, Vlaada encontrou um nicho não só para si, mas para toda a indústria.
Código Secreto foi muito bem recebido por público e crítica, vencendo diversos prêmios (incluindo o Spiel des Jahres 2016) e gerou uma série de variações:
- Código Secreto Imagens – palavras substituídas por imagens ambíguas; meu preferido.
- Código Secreto Duo – versão cooperativa para duas pessoas, com missões.
- Código Secreto Disney / Marvel / Harry Potter – palavras trocadas por personagens das grandes IPs.
- Código Secreto Indecente (Deep Undercover) – versão adulta, com palavras selecionadas para maiores.
Além disso, existe a versão online, que permite partidas remotas e ajuda a CGE a testar palavras para futuras edições.
O mercado percebeu o espaço para novos jogos de comunicação. O mais famoso é
Só Uma, vencedor do Spiel des Jahres em 2019, mas há muitos outros:
Entrelinhas,
Decrypto,
Concept,
When I Dream…
Conclusão
O simples só é óbvio depois que alguém demonstra. Quando Cristóvão Colombo propôs colocar um ovo em pé, ninguém pensou em dar uma batidinha na casca. Foi necessário que ele mostrasse o truque.
Assim são os gênios: fazem o difícil parecer fácil e usam o seu conhecimento para fazer coisas sofisticadas que sirvam a todos.
Muita gente acha que eles fazem isso apenas por dinheiro — que vendem seus ideais sofisticados em troca de acessibilidade. Não vou dizer que isso não entre na conta, mas existe algo maior. Todo criador quer se comunicar com o maior número de pessoas possível. E, quando você é muito preparado, se não descer alguns degraus, poucos vão entender o que você está dizendo.
Mais do que ser sofisticado, o artista busca ser universal. Tocar a todos. O dinheiro é importante, mas é consequência.
Assim como as músicas pop do Gênesis tocam até hoje,
Código Secreto continuará vendendo bem por muito tempo — pelo menos enquanto humanos gostarem de festas e de jogos de palavras.
Acho que vai demorar para a IA tomar isso da gente.
Série “Clássicos do Board Game”
Estou escrevendo uma série de 10 artigos sobre os clássicos do board game. São dez jogos que, na minha opinião, além de serem acessíveis a qualquer pessoa, passaram no teste do tempo e testemunham ao mundo sobre o quão prolífica foi a “Era de Ouro dos Board Games”, que ainda não sabemos se terminou ou não, mas que mudou para sempre a forma como podemos obter diversão inteligente de componentes de papelão, plástico e madeira.
Não estou dizendo que esses 10 sejam os únicos, nem talvez os maiores. Mas são os meus, os que eu usaria para explicar a um ET porque nós terráqueos gostamos de sentar numa mesa para jogar.
Os artigos que já saíram, além desse que você está lendo são:
1 –
Castles of Burgundy
2 –
Ticket to Ride
3 –
Azul
4 -
Lords of Waterdeep
Sorteio do Darwin's Journey - Resultado
E o vencedor dessa vez foi o Daniel Mesquita. Como ele estará na Covilcon, entregarei o jogo a ele durante o evento. Obrigado a todos que participaram.
ESTAMOS SEM SITE
Devido a problemas operacionais, o site do Covil dos Jogos está com problemas de hospedagem. Por isso, esotu postando esse texto direto na ludopédia, ao invés do normal, que é publica-lo primeiro no site.
O Paulo está vendo isso e acredito que logo logo voltaremos ao normal.
Vou segurar as doações de jogo até que o site volte (porque o meu controle fica melhor quando seleciono os concorrentes por lá - a Ludopédia não gosta muito que troquemos mensagens sobre entregas de jogos que não foram vendidos por ela.
Eduardo Vieira é analista de sistemas, e participa do Hobby desde 2018, mas vem tentando descontar o tempo perdido! É casado, mora no Rio de Janeiro e vive reclamando que não tem parceiros para jogar tudo que compra!