A ideia inicial do Horizonte nasceu de um sentimento: criar um jogo de vazas em que as jogadas acontecessem de forma simultânea.
Passei por várias versões de teste em plataformas online, mas a primeira versão física era bem esquisita — quatro pedaços de pano TNT sobre a mesa, cada pessoa jogando em uma vaza na sua frente e, depois, passando o pano para o jogador à esquerda. No meu grupo, essa versão ficou carinhosamente conhecida como “o jogo de passar o pano”. Apesar de as pessoas terem se divertido e o conceito ser engraçado, era burocrática e difícil de acompanhar o que acontecia na mesa, já que havia quatro vazas acontecendo em paralelo e a troca de panos atrasava o ritmo. O jogo se chamava GIRO (apegado ao nome de 4 letras depois do ONDA).
Geral passando o pano pro jogo quebrado
Tentei outras formas, como dispor as cartas em grade, mas, ainda assim, o fluxo não funcionava bem, além da pontuação, que era um problema difícil para que o jogo ficasse controlado e desafiador. Tentei várias dinâmicas diferentes, como jogar cartas em atraso, critérios diferentes para definição de trunfo, mudança na composição de baralho, mas nada parecia funcionar e, por fim, acabei deixando a ideia adormecer.
Qualquer semelhança com Parlamento é mera coincidência (sério)
Tempos depois, o Mr. Ben, da Travel Games, me convidou para criar um jogo para um baralho especial que viria acompanhado de várias regras de diferentes autores. Vendo o baralho, percebi que era uma composição de baralho tradicional com um naipe adicional, algumas cartas extras em cada naipe e as cartas especiais do Tichu (Dragão, Cão, Pássaro e Fênix). Pensei em retomar a ideia do jogo das vazas simultâneas de tal forma que se adaptasse a esse baralho e reduzi a composição para 12 cartas em quatro naipes, podendo ser jogável com baralho tradicional. Para as vazas simultâneas, pensei que poderia utilizar duas cartas especiais de Tichu e acabei escolhendo o Dragão e o Cão.
Cartas especiais do Tichu (Versão Nacional Jelly Monster)
Em Tichu, o Dragão é a carta mais alta quando jogada sozinha, enquanto o Cão tem a função de “passar a vez” para o parceiro — e essa característica me parecia perfeita para criar duas vazas com personalidades distintas. Assim, no jogo, a “vaza do Dragão” se resolve como uma vaza tradicional: maior carta do naipe inicial vence (ou maior trunfo, se houver). Já a “vaza do Cão” é vencida pela menor carta, independentemente do naipe (pois o Cão é parceiro de quem estiver mais próximo dele). Sim, eu poderia usar a carta do Pássaro, que é a menor, mas a aleatoriedade da vida me fez querer colocar o cachorro — talvez o meu próprio cachorro tenha feito com que eu, de forma inconsciente, tomasse essa decisão. E o desafio do jogo junto à pontuação foi resolvido com a simplicidade de — a diferença de vazas vencidas entre o Cão e o Dragão.
Esse é o Duque, ele quem me intimou a usar a carta do Cão.
As jogadas eram feitas simultaneamente em cada vaza: duas pessoas revelavam suas cartas ao mesmo tempo nas duas vazas. O jogo funcionava, eu expliquei o tema para algumas pessoas e Gabriel Toschi (autor de Cobogó, The Jetsons - o jogo de tabuleiro, Snow Climbing) sugeriu o nome perfeito: Horizonte. Quando expliquei que o Dragão representava o céu e o Cão, a terra — e o horizonte é justamente o que existe entre os dois —, esse conceito se encaixou no objetivo do jogo: prever a diferença entre as vitórias nas duas vazas. Depois disso, fiz uma ilustração minimalista como capa para cadastrar no BGG e na Ludopedia, e gostei do que o jogo tinha se tornado.
Capa do Horizonte que fiz pra cadastrar no BGG e Ludopedia
Com o tempo, me apaixonei pela ideia e quis transformá-la em produto. Mantive a estética minimalista: cada naipe representa um lugar de onde se pode observar o horizonte (deserto, montanha, oceano e acima das nuvens). Redesenhei a caixa com mais cuidado e pedindo muitos feedbacks para várias pessoas, refiz os componentes e dediquei horas a um verso de carta com o intuito de que fosse um elemento de destaque do jogo, que eu olhasse e enxergasse a identidade estética do jogo ali, sem ter nenhuma função exata para a partida, assim como me sinto quando vejo as cartas do jogo Parade. Acho que não cheguei lá, mas fiquei bem feliz com o resultado que consegui.
Mas, pouco antes de concluir, algo ainda me incomodava: o fluxo simultâneo das vazas deixava o jogo meio travado e isso aparecia cada vez mais nos últimos testes, porque ao jogar online esse fluxo era automatizado e ficava bem resolvido. Fiz um último teste, mudando para que as cartas jogadas alternassem entre Dragão e Cão, em vez de serem simultâneas — e o jogo fluiu muito melhor. Essa pequena mudança eliminou a burocracia sem comprometer o desafio e fez a luz do pôr do sol no Horizonte brilhar de vez pra mim, removendo o elemento que motivou a criação dele.
Hoje, enxergo no jogo as coisas que mais gosto em jogos de vaza: tensão, planejamento, controle e uma boa margem para derrubar os planos alheios. Horizonte nasceu de experimentos, pausas, retomadas e ajustes — e nem olhando de muito longe eu conseguia ver onde “o jogo de passar o pano” iria chegar.
Horizonte está em financiamento coletivo até o dia 14 de Setembro pela Meeplestarter.