Sem querer ser polêmico, entrar em discussões ideológicas/econômicas (liberalismo vs desenvolvimentismo) ou qualquer coisa que o valha, e muito menos fazer qualquer crítica a alguma empresa de jogos nacional, mas esse papo de " incentivar a indústria nacional" soa-me um tanto ingênuo.
Os jogos da Galápagos, da Conclave e da Devir não são importados e revendidos no Brasil? Posso estar enganado, mas claramente me parece ter sido o caso do Keyflowers (veio de PT) e, pelo menos, do Cyclades e do Kemet, além de alguns jogos da Devir. O manual dos jogos é, sim, traduzido (serviço barato e cujo material poderia ser achado gratuitamente e com melhor qualidade em sites especializados, como este aqui) e impresso, porém acho que isso não justifica os custos (para todos nós) de manter essa tal "indústria nacional". Afinal, claramente, me parece, esse tipo de proteção acaba concentrando renda: pq oficializar importadores (a chamada "indústria nacional") e concentrar nas suas mãos uma quantidade de dinheiro que é maior (custos + impostos + lucro) do que o excedente de todos os consumidores caso pudéssemos comprar jogos pelos seus preços reais? Excedente que, claro, poderia até ser usado em mais compras ou investimentos que estimulariam a economia nacional. Sem falar que se os jogos são importados ou parcialmente produzidos lá fora, nem mesmo empregos estão sendo gerados por aqui, apenas a renda é que está sendo concentrada.
Alguns jogos têm os componentes (cartas, tiles etc.) traduzidos e, talvez, impressos no Brasil (algo que, dependendo da qualidade e do custo, talvez já esteja sendo ou em breve será realizado no exterior: a Devir afirmou ter feito isso com As Lendas de Andor, por exemplo, cujas cartas foram impressas na Alemanha). Nada contra as empresas nacionais. Fico feliz que elas existam e, se eu fosse proprietário de uma delas, produziria os jogos exatamente da mesma maneira que elas estão produzindo (por meio de importação total ou parcial).
O que eu não concordo é com o argumento em favor da proteção de mercado e dos impostos absurdos que as pessoas têm que pagar como forma de incentivo à indústria nacional. Afinal, pq as duas coisas (importação e indústria nacional) não podem coexistir? Muitas pessoas não dominam outros idiomas, ou simplesmente nem sabem da existência desses jogos. Para essas, empresas como a Conclave, a Devir e a Galápagos, por meio das traduções e da visibilidade no mercado nacional, seriam uma ótima opção. Além disso, essas empresas, independente de serem ou não protegidas, teriam a possibilidade de vender produtos nacionais exclusivos (como já estão fazendo com alguns jogos). Acho até que um mercado aberto influenciaria ainda mais esse diferencial: encontrar autores brasileiros com ideias novas para lançar produtos diferentes dos importados por aqui.
Se proteção de mercado realmente funcionasse para incentivar uma indústria nacional de jogos, não teríamos tantos jogos surgindo, hoje, em países como Alemanha (exemplo óbvio), França (Asmodee, Bruno Chatala etc.), Itália (equipe do War of the Ring, Conan etc.) e República Checa (Vlaada Chvátil) por exemplo. A livre circulação de mercadorias da UE não parece ter destruído a indústria nacional de jogos desses países, muito pelo contrário: a livre circulação de jogos expandiu o hobby, criando novos gamers, que, por si, aumentaram a demanda nos seus países, fazendo com que novos designers (muitos deles gamers que descobriram jogos de outros países) e empresas surgissem para ofertar novos jogos. Veja o caso do TTA: mesmo com o mercado aberto na UE, as indústrias nacionais têm um público cativo desse jogo em seus países pq criam leaders e wonders exclusivos para seu público. Mesmo podendo comprar um TTA importado, na Espanha os espanhóis compram o TTA produzido no seu país pq lá tem cartas como EL Cid, Sagrada Familia etc. Mais eficiente, para cativar o mercado nacional, do que taxar absurdamente um jogo como TTA seria oferecê-lo com promo cards: imaginem que bacana uma edição nacional com leaders como Santos Dumont (algum bônus tecnológico) ou uma Wonder como o Cristo (bônus de felicidade e cultura) ou mesmo Itaipu (bônus de produção de minas)... Com certeza eu iria comprar uma edição dessas mesmo podendo comprar uma mais barata importada.
Bem, espero ter contribuído para o tópico.
Abraços