Há muito me pedem para falar aqui dos jogos que criei. Quase como um diário de game designer. Então vamos começar pelo primeiro grande jogo que criei e que fez pessoas começarem a jogar de pé nas últimas rodadas (um belo indício que o treco deu certo): Camélia - Heróis Abolicionistas
Não lhe ensinaram na escola sobre os verdadeiros heróis brasileiros. Nossos livros de história, infelizmente, sempre foram muito rasos. Felizmente, os board games estão aí (também) para consertar isso.
Ainda hoje tem muita gente que não conhece Luís Gama, um menino preto que nasceu livre, foi vendido como escravizado aos 10 anos, aprendeu a ler na escravidão e conseguiu (ele mesmo) se libertar aos 17 anos, na Justiça. Não apenas isso: atuando como rábula (isto é, exercia a advocacia sem diploma de Direito, o que era permitido na época), conseguiu a liberdade de mais de 500 pessoas escravizadas por meio de ações judiciais. Já imaginou isso? Uma pessoa preta libertando outras 500 pessoas escravizadas naquela época? Quando a escravidão ainda parecia um destino inevitável em um dos sistemas mais perversos e opressores da nossa história? Se isso não é um mote para livros e filmes épicos, que deveriam retratar o herói que ele foi, não sei mais o que poderia ser. Foi essa história, ao lado de outros enredos de heróis abolicionistas, que me fez criar o jogo Camélia.

Ao longo do século XIX, o Movimento Abolicionista reuniu algumas das mais brilhantes e corajosas personalidades da nossa história. Advogados, jornalistas, poetas, parlamentares, líderes populares e cidadãos comuns uniram suas vozes e seus esforços para enfrentar a escravidão, uma das maiores injustiças de nosso passado. Além de Luís Gama, que transformou o Direito em instrumento de liberdade, tivemos José do Patrocínio, cuja eloquência incendiou a causa; Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, símbolo da resistência cearense que enfrentou, em sua jangada, gigantescos navios negreiros; Castro Alves, que eternizou a luta em seus versos; Joaquim Nabuco, incansável articulador político; e Antônio Bento, líder dos Caifazes, grupo secreto de abolicionistas que organizava a fuga de pessoas escravizadas das fazendas, conduzindo-as por uma rede de apoiadores até locais seguros. Pessoas que enfrentaram interesses poderosos, desafiaram preconceitos e arriscaram a própria segurança para defender a dignidade humana. O jogo Camélia tenta lembrar um pouquinho desse legado que transcende a Abolição de 1888 e permanece como um testemunho eterno de que a coragem, a perseverança e a convicção podem mudar o curso da história e tornar a liberdade mais forte do que qualquer corrente.
O jogo
Camélia é um jogo de alocação de trabalhadores, mas eu não queria a mecânica pura e simples. Além de ser programada, a alocação é realizada em duas etapas, permitindo aos jogadores se recuperarem no mesmo turno. Vocês assumem o papel de abolicionistas “comuns” e devem visitar seis dos principais heróis abolicionistas durante as 13 rodadas e ajudar a realizar ações ligadas ao movimento e que também vão lhes render camélias (pontos de vitória). Cada um, em sua área, ajudou o movimento na luta que daria na abolição da escravatura, em 1888.

Os jogadores alocam seus peões nas áreas em que eles desejam atuar naquela rodada (a de Luís Gama, por exemplo). É uma alocação prévia (A, B e C na imagem). Posteriormente, quando todos os trabalhadores estão alocados, cada jogador escolhe onde vai realizar a ação primeiro. Como cada área possui uma alocação especial (D) e duas comuns (E), essa segunda escolha é extremamente importante (você pode fazer a especial do Luís Gama, mas o próximo jogador faz a especial do Dragão do Mar primeiro, mesmo você tendo alocado primeiro lá). Isso quer dizer que a primeira alocação não é menos importante, já que ao priorizar outros setores você pode ficar sem espaço naquele que você desejava.
A “Arte”
Ser game designer no Brasil é uma tarefa ingrata. Se você usa imagem de I.A., descem o sarrafo. Se deixa tudo em papel branco (esperando que se encantem pela mecânica), ele não chama atenção. Uso, sim, imagens de inteligência artificial, uma vez que não tenho R$ 10 mil para pagar um artista neste estágio do processo. Se um protótipo se encaminha para virar produto, aí sim, um artista é contratado.
No caso do Camélia, usei banco de imagens gratuitas. E como não sou designer gráfico, tudo parece uma confusão. A esperança é que vejam o jogo e imaginem o que ele poderia ser depois de trabalhado por um artista de verdade (e como temos essas pessoas aqui no Brasil só esperando pra meter o pincel nessa história).
Publicação
Quem já jogou Camélia vira e mexe me pergunta (me manda mensagem) quando ele será publicado. Uma editora uma vez me pediu para reservá-lo. Um ano assim. Mas é um mercado brutal, onde competimos com produtos prontos e “testados” vindos do exterior. A verdade é que não tenho pressa. Minha primeira intenção é criar jogos bons que possam encher os olhos de pessoas próximas, que encantem amigos de jogatina. Não mais que isso. Me dá prazer apenas de vê-los se divertindo. Tenho minha própria profissão (que já toma quase todo o meu tempo) e não tenho o menor interesse de ganhar dinheiro com game design. Se o jogo for lançado um dia, meu pagamento será o fato de saber que mais pessoas podem estar se divertindo (e, de tabela, aprendendo um pouco mais sobre esses heróis incríveis).
Diferenciais
Além da alocação programada já citada, outra coisa que chama atenção no jogo é a ordem de turno/incoming, uma “camélia giratória” que alterna o turno o tempo inteiro, já que ela mesma é uma área de alocação. A ordem é alterada no meio da rodada e muda tudo num piscar de olhos.
A área central, onde os jogadores encontram a Princesa Izabel para contar os feitos abolicionistas, também se mostra um destaque durante as jogatinas. É uma área de “cumprir contratos” que é sempre diferente, de partida para partida.

Por que Camélia?
Não sei se fez isso ainda, mas parou para se perguntar o motivo de um jogo sobre heróis abolicionistas se chamar camélia? Uma flor? Essa eu deixo para o Manual, disponível aqui na Ludopedia. Caso queira saber mais sobre essa história incrível, dê uma lida nele. (caso tenha lido o manual, por favor deixe um comentário pra mim. Vou adorar ler cada interação).
O desenvolvimento de Camélia levou alguns anos e muitos testes. Incrivelmente, não sofreu tantas alterações quanto eu imaginava (outros muitos jogos que criei foram virados do avesso durante esse processo). Foi como se já tivesse nascido pronto. E o fato de ver pessoas se levantando para jogar de pé nas últimas rodadas (quase sempre) me deu a certeza de que ele estava pronto. Feliz demais de já ter visto muitos se divertirem com ele, de acharem incríveis as histórias aprendidas com o tema. E, quiçá, um dia ele possa chegar para mais pessoas.
Luciano Marques
