Não lembro exatamente quando decidi comprar Salem 1692, mas lembro perfeitamente da fase em que eu estava: completamente fascinado por jogos de blefe. O que me conquistou primeiro foi a temática das bruxas e a apresentação. A caixa em formato de livro já fazia o jogo parecer especial antes mesmo de abrir. O problema é que ele estava esgotado. Fiquei acompanhando o estoque da editora por alguns meses e, quando voltou, não pensei duas vezes. Foi uma compra daquelas que você faz por intuição... e acerta em cheio.
Na minha turma de amigos, Salem virou sucesso quase instantaneamente. Sempre que aparecia uma oportunidade, eu levava o jogo. Mas o mais divertido era criar toda uma ambientação: playlist de músicas temáticas, meia-luz e alguém narrando a fase da noite. Eu adoro assumir esse papel de arauto, conduzindo a história enquanto a cidade dorme. A experiência muda completamente quando todo mundo entra no clima.
Na primeira partida, a associação foi imediata: "isso aqui é o Cidade Dorme em forma de jogo de tabuleiro." E foi exatamente isso que me fez apaixonar por ele. Depois descobri que existia todo um universo de jogos de papéis ocultos e dedução social, mas Salem foi a minha porta de entrada. As regras, no fundo, são simples. O problema é que o manual faz parecer exatamente o contrário. Sinceramente, achei um dos piores manuais que já li. A organização das informações é confusa, algumas regras importantes ficam espalhadas e nossas primeiras partidas foram cheias de dúvidas. Felizmente, o jogo é tão bom que faz você querer insistir até tudo fazer sentido. E quando faz... funciona muito bem.

A grande sacada está na quantidade de possibilidades. A cada partida você pode ser apenas um cidadão, nascer como bruxa, ser vigilante ou até reunir mais de um papel ao mesmo tempo. Além disso, cada jogador recebe uma identidade da cidade de Salem com habilidades próprias. Isso aumenta muito a rejogabilidade. Dificilmente duas partidas contam a mesma história. Outro detalhe que adoro é que ninguém está completamente seguro. Você pode começar a partida como um cidadão inocente e, no meio do jogo, se transformar em uma bruxa. De repente, aquela pessoa que você jurava ser sua inimiga vira sua maior aliada. A partir daí, toda sua narrativa muda: agora você precisa protegê-la sem levantar suspeitas. Ou então... você simplesmente chama atenção demais e acaba eliminado durante a noite. É tensão o tempo inteiro.
Uma das características que mais gosto em Salem é que você praticamente não usa suas cartas para beneficiar a si mesmo. Todas as ações são direcionadas aos outros jogadores. Isso faz com que a conversa, as acusações, os blefes e a capacidade de convencer a mesa sejam muito mais importantes do que as próprias cartas. Eu gosto muito dessa escolha porque ela conversa com a própria temática do jogo. Durante os julgamentos de Salem, ninguém conseguia realmente provar sua inocência. Muitas vezes, a única saída era acusar outra pessoa. No jogo, essa sensação aparece o tempo todo.

Salem definitivamente não é um jogo para qualquer mesa. Ele funciona muito melhor com grupos grandes. Já joguei em cinco pessoas e achei a experiência apenas "ok". Agora, quando a mesa está cheia, com oito, dez ou até doze jogadores, o jogo ganha outra vida. Também é importante entrar na proposta. Quem gosta de interpretar, acusar os amigos, criar teorias e blefar vai se divertir muito. Quem não curte aleatoriedade ou prefere jogos mais controláveis talvez não se encante tanto. Eu, por exemplo, adoro jogar como cidadão ou vigilante. Como bruxa... sou um desastre. Fico nervoso, começo a agir estranho e normalmente sou um dos primeiros suspeitos. Mesmo assim, adoro todas as possibilidades que o jogo oferece.
Salem 1692 continua sendo um dos jogos que mais gosto de apresentar para grupos grandes. Tem uma produção maravilhosa, muita personalidade, gera histórias memoráveis e cria momentos de tensão do começo ao fim. Revelar uma carta de julgamento, esperar a fase da noite ou tentar convencer a mesa de que você é inocente... tudo vira um evento. Talvez por existir pouco conteúdo sobre ele, eu tenha sentido vontade de produzir o meu próprio. É um jogo que merece muito mais reconhecimento.
Se você gosta de dedução social, blefe e não tem medo de provocar seus amigos... Salem 1692 é uma excelente escolha. Só lembre de uma coisa: Aqui, para sobreviver, às vezes acusar é mais importante do que se defender.